De História em História (Parte I)


- XIII episódio –

Não precisava de ir ao Gurué para ter o que contar. Ao jantar, a histórias sucediam-se.

O namorado da Vera, o Fernando, é mais um português que vive em Maputo há já seis anos. Traalha numa grande empresa portuguesa e não tem perspectivas de regressar a casa tão cedo. Um dia regressará, há dias em que, diz, quer ir no di seguinte. Passada a fase do encantamento, isto cansa muito!, diz-me.

Ainda antes do jantar pede uma água, porque a noite anterior foi dura. Eu peço uma caipirinha. Sai-me na roleta uma caipiraça, tal era a incidência naquele copo da cachaça. Sem enfraquecer ao segundo nem ao terceiro golo, deixo de ter pena de abandoná-la quando passámos à mesa de jantar, não fosse daquele meu secreto combate sair eu a enfraquecida. Temos que nos abastecer. Há que comer bem hoje, não sabemos o que nos espera nos próximos tempos., diz-me a Vera.

Peço filetes de garoupa. E, saboreando-os e ao seu molho de manteiga, fui saltando de história em história.

Ainda como colónia, Moçambique tinha três fábricas da Coca-Cola, os moçambicanos eram conhecidos pelos Coca-Colas e estas ainda nem se vendiam em Portugal., vai contando o Fernando.

Explicam-me que Moçambique é Maputo, tudo o resto é muito pobre, muito pouco desenvolvido. Quem for, por exemplo, à Beira falar português corre o risco de não ser compreendido, poucos são os que falam a língua oficial do país. Os dialectos retalham Moçambique em parcelas que não têm conta. Em Maputo fala-se chissango e o dialecto da Beira, o Ndau, muitos Maputenses nem compreendem. À dificuldade de comunicaçaão entre as populações, potenciada pelo monopólio de que goza a única companhia aérea do país, as Linhas Aéres de Moçambique (“LAM”) dificultam o real conhecimento deste pelo seu povo. A pobreza é generalizada, o salário médio ronda hoje os sessenta euros por mês. Uma prostituta na Beira é capaz de se vender por vinte meticais, equivalentes a setenta cêntimos de euro. À semelhança dos imigrantes de leste que, em Portugal, fazem por metade do preço o trabalho que os portugueses, hoje todos licenciados, desprezam, as zimbabweanas arruinaram o mercado às prostitutas moçambicanas.

Passamos às sobremesas. E, entre uma mesa de doçaria volante, escolho um sortido para não ter de escolher entre… histórias.

Comentários

Adorei seu blog

Olá margarida,
Gostei muito de seu blog, sempre tive muita vontade de conhecer isso tudo e agora, peço a voce ajuda no sentido de conseguir uma colocação profissional como assistente social aí, uma vez que minha formação profissional se encaixa perfeitamente aos problemas sociais aí vividos.
meu e-mail|; junqueiraidac@hotmail.com
Fico aguardando ansiosa um contato...
um grande abraço
]maria

Descrição do Autor

De Capulana em Capulana

"Semanalmente e num estilo ficcionado, os episódios que se seguem contam a história real duma viagem por Moçambique."

Margarida Damião Ferreira nasceu em Lisboa, em 1979.

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Ciência Política e Relações in­ternacionais pelo Instituto de Estudos Po­líticos da Universidade Católica Portugue­sa, é advogada e escritora.

Co-autora do livro "Litígios e Legitimação – Estado, Sociedade Civil e Direito em S. Tome e Príncipe", publicado pela Almedi­na em 2002, estreou-se como autora com o livro infantil "A Pulga Salta-pocinhas e os Grãos de Areia", publicado pela Editorial Presença em 2004.

Escreve semanalmente artigos de ficção num blogue do semanário Expresso como colaboradora convidada.

O seu curriculum conta ainda com a fre­quência de cursos de Escrita Criativa e Es­crita de Viagens e uma pós-graduação em Jornalismo Judiciário.

Em terras moçambicanas publicou já o artigo “IBO: o Ontem, o Hoje e o Amanhã de uma Ilha Bem Organizada”, Tema de Fundo do jornal “A Verdade” e assina a coluna semanal de ficção “De Capulana à Cintura”.

Ainda em Dezembro deste ano lança o seu primeiro livro de poemas “Assim, como as cerejas...”, editado pela Papiro Editora, em Portugal.