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Ana Cristina Antunes
Quinta-Feira, 23 de Abril de 2009
- XIII episódio –
Não precisava de ir ao Gurué para ter o que contar. Ao jantar, a histórias sucediam-se.
O namorado da Vera, o Fernando, é mais um português que vive em Maputo há já seis anos. Traalha numa grande empresa portuguesa e não tem perspectivas de regressar a casa tão cedo. Um dia regressará, há dias em que, diz, quer ir no di seguinte. Passada a fase do encantamento, isto cansa muito!, diz-me.
Ainda antes do jantar pede uma água, porque a noite anterior foi dura. Eu peço uma caipirinha. Sai-me na roleta uma caipiraça, tal era a incidência naquele copo da cachaça. Sem enfraquecer ao segundo nem ao terceiro golo, deixo de ter pena de abandoná-la quando passámos à mesa de jantar, não fosse daquele meu secreto combate sair eu a enfraquecida. Temos que nos abastecer. Há que comer bem hoje, não sabemos o que nos espera nos próximos tempos., diz-me a Vera.
Peço filetes de garoupa. E, saboreando-os e ao seu molho de manteiga, fui saltando de história em história.
Ainda como colónia, Moçambique tinha três fábricas da Coca-Cola, os moçambicanos eram conhecidos pelos Coca-Colas e estas ainda nem se vendiam em Portugal., vai contando o Fernando.
Explicam-me que Moçambique é Maputo, tudo o resto é muito pobre, muito pouco desenvolvido. Quem for, por exemplo, à Beira falar português corre o risco de não ser compreendido, poucos são os que falam a língua oficial do país. Os dialectos retalham Moçambique em parcelas que não têm conta. Em Maputo fala-se chissango e o dialecto da Beira, o Ndau, muitos Maputenses nem compreendem. À dificuldade de comunicaçaão entre as populações, potenciada pelo monopólio de que goza a única companhia aérea do país, as Linhas Aéres de Moçambique (“LAM”) dificultam o real conhecimento deste pelo seu povo. A pobreza é generalizada, o salário médio ronda hoje os sessenta euros por mês. Uma prostituta na Beira é capaz de se vender por vinte meticais, equivalentes a setenta cêntimos de euro. À semelhança dos imigrantes de leste que, em Portugal, fazem por metade do preço o trabalho que os portugueses, hoje todos licenciados, desprezam, as zimbabweanas arruinaram o mercado às prostitutas moçambicanas.
Passamos às sobremesas. E, entre uma mesa de doçaria volante, escolho um sortido para não ter de escolher entre… histórias.
De Capulana em Capulana
"Semanalmente e num estilo ficcionado, os episódios que se seguem contam a história real duma viagem por Moçambique."
Margarida Damião Ferreira nasceu em Lisboa, em 1979.
Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Ciência Política e Relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é advogada e escritora.
Co-autora do livro "Litígios e Legitimação – Estado, Sociedade Civil e Direito em S. Tome e Príncipe", publicado pela Almedina em 2002, estreou-se como autora com o livro infantil "A Pulga Salta-pocinhas e os Grãos de Areia", publicado pela Editorial Presença em 2004.
Escreve semanalmente artigos de ficção num blogue do semanário Expresso como colaboradora convidada.
O seu curriculum conta ainda com a frequência de cursos de Escrita Criativa e Escrita de Viagens e uma pós-graduação em Jornalismo Judiciário.
Em terras moçambicanas publicou já o artigo “IBO: o Ontem, o Hoje e o Amanhã de uma Ilha Bem Organizada”, Tema de Fundo do jornal “A Verdade” e assina a coluna semanal de ficção “De Capulana à Cintura”.
Ainda em Dezembro deste ano lança o seu primeiro livro de poemas “Assim, como as cerejas...”, editado pela Papiro Editora, em Portugal.
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Comentários
Adorei seu blog
maria junqueira
Sexta-Feira, 18 de Março de 2011, 17:00:08