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Ana Cristina Antunes
Quarta-Feira, 1 de Julho de 2009
XXI Episódio
Cinco da manhã, o serviço despertar sacode-nos o sono e entre preguiças, vamos ter com o Frank, o nosso guia, à porta do Parque. Entramos no jipe e ao ouvir a sua lista de animais “a ver” lembro-me do Tim: “Hoje vamos ver hipopotamos, certamente. Os hipopotamos são os animais mais mortíferos de África. Não são carnívoros, só comem relva, mas atacam sem serem atacados. Se nos pusermos, sem querer, entre eles e o que querem, o que julga ser seu território ou entre eles e o rio, atacam.”, começou por explicar.
O Frank tem 45 anos e, tal como o Tim, nasceu no Zimbabwe. Por lá vivia quando viu as sete quintas da sua família serem ocupadas pelo Governo. A única sobrevivente é uma quinta de vacas gerida pelos seus tios, resquício da família que ficou no país. “No dia em que os meus tios emigrarem para cá, ficámos sem nada.”, disse-nos, triste, mas conformado.
Começamos por ver elefantes, depois o blue wildbest, vários kudus, impalas e, nesta primeira parte, um klipspringer ou, como o nome representa, “salteador de rochas”. E mais elefantes e mais impalas. E impalas e elefantes. E ainda mais elefantes. Elefantes africanos, bem diferentes dos indianos, mais altos, capazes de devastar florestas inteiras. O Frank diz-nos que uma das maiores preocupações ambientais são estes destruidores elefantes. Só no Kruger Parque há cerca de 1200 elefantes. Cada elefante come, por dia, 3500 kg de árvores e bebe 150 litros de água por dia! Aúnica solução em cima da mesa, explica-nos o Frank, é começar a matá-los. Não há outra e pareceu-me sabedor na exclusão das partes. Pelo menos, para ser guia no Kruger precisou de dois anos de estudos, testes escritos, práticos e seis meses de experiência antes de lhe serem exigidas as licenças governamentais e poder finalmente levar até outros o que sabe do reino animal. Tal como o Tim, o Frank deixou no Zimbabwe a esperança de regressar ao seu país. A população, explica-nos, tem cada vez mais fome, as quintas produtoras, como as da sua familia, alimentavam a família proprietária e o país e, ocupadas pelo Governo, deixaram de ser cultivadas, nada é feito delas. A emigração para a África do Sul é um prolema, porque a mão-de-obra barata vinda do Zimbabwe cria desemprego aos sul africanos que, desesperados, reagem violentamente contra os imigrantes em ataques xenófobos, autênticos linchamentos. Mas, a vida em Joannesburgo também está cada vez mais perigosa e no dia em que o Frank teve ladrões a dispararem contra si e contra o seu filho Mathew, simplesmente para assaltar a casa, foi o dia em que decidiu partir novamente, disse-nos.
Hoje entre o nascer e o pôr do sol na selva, garante-nos viver um dia menos selvagem que aquele que encontrou nas cidades por onde passou.
De Capulana em Capulana
"Semanalmente e num estilo ficcionado, os episódios que se seguem contam a história real duma viagem por Moçambique."
Margarida Damião Ferreira nasceu em Lisboa, em 1979.
Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Ciência Política e Relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é advogada e escritora.
Co-autora do livro "Litígios e Legitimação – Estado, Sociedade Civil e Direito em S. Tome e Príncipe", publicado pela Almedina em 2002, estreou-se como autora com o livro infantil "A Pulga Salta-pocinhas e os Grãos de Areia", publicado pela Editorial Presença em 2004.
Escreve semanalmente artigos de ficção num blogue do semanário Expresso como colaboradora convidada.
O seu curriculum conta ainda com a frequência de cursos de Escrita Criativa e Escrita de Viagens e uma pós-graduação em Jornalismo Judiciário.
Em terras moçambicanas publicou já o artigo “IBO: o Ontem, o Hoje e o Amanhã de uma Ilha Bem Organizada”, Tema de Fundo do jornal “A Verdade” e assina a coluna semanal de ficção “De Capulana à Cintura”.
Ainda em Dezembro deste ano lança o seu primeiro livro de poemas “Assim, como as cerejas...”, editado pela Papiro Editora, em Portugal.

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Comentários
obrigada
margarida damiao ferreira
Terça-Feira, 24 de Novembro de 2009, 11:00:18
a vida na selva
Fernanda Angius
Terça-Feira, 18 de Agosto de 2009, 10:00:17