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Ana Cristina Antunes
Sexta-Feira, 29 de Maio de 2009
- XVIII episódio –
A primeira coisa que me surpreendeu fora de portas foi a estrada, ladeada de campos verdes, de bananeiras, de laranjeiras. De um lado laranjas, do outro cana-de-açúcar e a cor do campo é acompanhada pela frescura de um aroma floral, quente e, ao mesmo tempo, confortavelmente adocicado. O Tim espera-nos à entrada do Marloth Park. Um ranger com cara de australiano sexagenário, olhos claros, barba e cabelos grisalhos, alto, magro, de cara simpática e trato familiar. Era o nosso anfitrião no Bushwise Safari Lodge, para onde nos guiou durante vinte minutos em estrada de terra batida, no seu jipe branco de caixa aberta. O Bushwise Lodge é uma casa que, no máximo, alberga dez hóspedes e espreita o Kruger Park, colado ao lado de cá da quase invisível cerca. Foi construída pelo Tim ao longo de oito meses, depois de ter encontrado onde era fácil construir. O Tim cansou-se da Cidade do Cabo e decidiu mudar de vida: “Vivi lá vinte anos. Trabalhava na alfândega”, diz-me. E depois?, perguntei-lhe. “Depois divorciei-me e comprei este pedaço de terra. Foi onde foi fácil comprar e construir.” O Tim nascei no Zimbabué, de onde saiu aos dezanove anos. Foi viver para a África do Sul, onde casou e teve dois filhos. Pergunto-lhe se não lhe custa viver longe dos filhos. “Hoje, com 25 e 28 anos, eles visitam-me sempre que querem”. Finalmente encontrou a paz. Aqui, neste bocado de terra à beira da vida selvagem, confessa que vive em paz.
E enquanto bebo um chá de costas para a vegetação e a Vera interrompe a sua água tónica para ir à casa de banho, o Tim, de frente para a cerca, num instante se torna imóvel. Quieto e sem me dizer palavra, leva o dedo aos lábios em sinal de silêncio. Pelo fitar dos olhos, percebo que vê além da cerca. Não me mexo. De costas para o mato, obediente sustenho a respiração para nem esta fazer barulho. Num movimento tão lento quanto cuidadoso do braço, sem mexer o corpo, o Tim alcança os binóculos pendurados na parede atrás de si. Olho-o, de coração palpitante, enquanto ele olha a sua presa. Volta a mostrar-me os olhos enquanto baixa lento os binóculos e sussurra sem olhar-me: “He´s here.”
- What? What do you mean? Who? Whos is here?, pergunto-lhe a sussurrar, aproveitando todos os segundos deste minuto concedido para perguntas e rezando que houvesse ainda tempo para as respostas antes de voltarmos ao silêncio absoluto.
- The leo. The leopard is here., responde-me, sem tirar os olhos do lado de lá da cerca.
(continua)
De Capulana em Capulana
"Semanalmente e num estilo ficcionado, os episódios que se seguem contam a história real duma viagem por Moçambique."
Margarida Damião Ferreira nasceu em Lisboa, em 1979.
Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Ciência Política e Relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, é advogada e escritora.
Co-autora do livro "Litígios e Legitimação – Estado, Sociedade Civil e Direito em S. Tome e Príncipe", publicado pela Almedina em 2002, estreou-se como autora com o livro infantil "A Pulga Salta-pocinhas e os Grãos de Areia", publicado pela Editorial Presença em 2004.
Escreve semanalmente artigos de ficção num blogue do semanário Expresso como colaboradora convidada.
O seu curriculum conta ainda com a frequência de cursos de Escrita Criativa e Escrita de Viagens e uma pós-graduação em Jornalismo Judiciário.
Em terras moçambicanas publicou já o artigo “IBO: o Ontem, o Hoje e o Amanhã de uma Ilha Bem Organizada”, Tema de Fundo do jornal “A Verdade” e assina a coluna semanal de ficção “De Capulana à Cintura”.
Ainda em Dezembro deste ano lança o seu primeiro livro de poemas “Assim, como as cerejas...”, editado pela Papiro Editora, em Portugal.

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Comentários
OBRIGADA
Margarida Damiao Ferreira
Terça-Feira, 24 de Novembro de 2009, 11:00:22
AETHIOPIA INFERIOR VEL EXTERIOR
Lourenço Marques
Quinta-Feira, 16 de Julho de 2009, 4:00:22
Jornalista brasileiro
Luiz Fernando Cardoso
Segunda-Feira, 8 de Junho de 2009, 9:03:23